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7 de Maio de 2021

Olhar pela janela: liberdade x trabalho.

Um breve relato.

Marco A. Z. Stradolini, Psicólogo Social
há 6 anos

Olhar pela janela liberdade x trabalho

Há algum tempo passei por uma situação inusitada que repercute até hoje no meu âmago e gostaria de compartilhar.

O causo ocorreu em um atípico dia de inverno porto-alegrense, daqueles sem chuva e que o sol vibrante afasta para longe o famigerado frio da manhã. Um dia daqueles que você é convidado a viver intensamente, que certamente terá algo para por na bagagem da existência.

Estávamos, minha equipe de trabalho e eu, em uma sala improvisada (a nossa havia sido interditada para reformas estruturais) e aquele era um lugar que não o nosso e assim todos foram transportados para uma verdadeira zona de desconforto.

Eu, preso em pensamentos, estava buscando a melhor solução para o andamento de um processo administrativo não tão corriqueiro, quando viro-me para a janela a fim de buscar inspiração, estratégia que normalmente uso. Nesse momento, deparo-me com um horizonte completamente diferente e minha mente viajou para longe, transportei-me para o além e de lá voltei com uma indagação feita em voz alta para os ouvidos de todos meus colegas:

"Somos livres?"

A pergunta ecoou e todos pararam o que faziam, mas ninguém respondeu. Senti um grande vazio na equipe, um sentimento que desconfio ser (in) conscientemente compartilhado por todos trabalhadores naquele antigo prédio. A fim de saciar minha reflexiva busca por respostas, mudei a pergunta:

"E se nós fôssemos agora comer bergamota na Usina do Gasômetro?"

(No RS a Tangerina também é chamada de Bergamota, e o Gasômetro é um dos principais pontos de encontro jovem da cidade.)

Finalmente um retorno dos meus queridos colegas: risadas, como se tivesse contado a piada mais engraçada da terra! Percebi que meus questionamentos não viriam a ter êxito, provavelmente por não alcançar a profundidade de que gostaria. Qual seria o motivo? Eis minha grande indagação até hoje! Adianto algumas teorias aos que até aqui me acompanham: Primeiramente, nossa liberdade é uma grande farsa, pois só ludicamente que eu poderia, em pleno horário de trabalho, dar-me ao luxo de viver. Depois, que a tecnologia evolui, as relações interpessoais evoluem, a sociedade de certa forma evolui, mas o trabalho não, pelo menos não na mesma escala. Existe um grande desprezo pelo trabalho e tenho compreendido porque cada vez mais os jovens não querem trabalhar. Afinal, quem não gostaria de comer bergamota no Gasômetro, ou no Parque da Redenção, em uma terça-feira as 14 horas da tarde?

O trabalho é sinônimo de sofrimento desde os tempos antigos, ou alguém discorda a ideia empregada em sua origem no latim? Tripalium é até hoje uma forma de dominação, de arrancar a humanidade das pessoas. Entretanto, antes de tudo o trabalho é o que torna homem humano, ele é o que dá valor a nossa existência e muitas vezes é ele que nos define. Sim, é uma relação paradoxal, complexa e profundamente social. Será que podemos ser definidos pela forma de tortura que vivemos? Pelo visto sim, e cada vez mais isso irá acontecer enquanto não revermos os valores sociais do trabalho.

Onde vem o Direito nessa história? Como operador do direito sou um ótimo psicólogo, pois nunca falarei com a propriedade dos amigos e colegas daqui neste assunto, mas posso dar minha humilde contribuição. O direito tudo tem a ver com a geração de valor de uma sociedade, pois é nele que se inicia e termina qualquer relação humana, seja com o direito a vida e ou mesmo na dignidade da morte. Por isso acredito que é a hora de se permitir novos mecanismos e políticas para controle do trabalho, e é nisso que a lei deveria se atentar:

1) Redução de carga horária de trabalho: Na revista EXAME¹ se constatou que geramos 5 vezes menos valor do que os norte americanos (dado infinitamente pior do que os 7x1 "comemorados" hoje), o problema não está na quantidade de trabalho e sim na qualidade da execução. Será que eu não produziria mais se parasse de pensar em bergamotas durante o expediente?

2) Cultura do Trabalho: O Brasil tem perseguido a nobre missão de tornar a infância um período sagrado, o que é ótimo. Infelizmente, a realidade das famílias brasileiras não dão conta de acompanhar essa busca e a simples proibição do trabalho infantil, como qualquer outra repressão, leva a casos extremos e preocupantes a ocorrerem naqueles lugares em que o Estado não alcança². Para virar esse jogo devemos primeiramente dar sim oportunidade de geração de renda para jovens menores de 14 anos, mas em modelo educacional e não laboral. Minha sugestão não é a de criar "estagiários mirins", mas um sistema em que crianças possam já na escola aprender ofícios, e não pela renda em si, mas pela importância do trabalho. Trabalho com estagiários e não prevejo um futuro muito bom para o país daqui para frente - é quase unânime a pouca vocação para o labor.

3) Ensino do Direito nas escolas: Como queremos galgar um Direito mais consonante com a realidade se não conhecemos o Direito nem a Realidade? Nem digo as minúcias da lei, mas os jovens ingressantes na minha prefeitura normalmente desconhecem a independência dos Poderes (quando se quer sabem quais são eles) e a autonomia administrativa entre União, estados e municípios. Ca entre nós, é o mínimo do mínimo para se tentar exercer a cidadania.

4) Abertura para as modernas relações de trabalho: A tecnologia está aí, e o Teletrabalho não se torna uma realidade em nosso país. Nos EUA, por exemplo, existem programas para idosos ou donas de casa realizarem serviços de "Call Center" nas horas vagas³, elas simplesmente entram no sistema e se colocam a disposição do serviço, o telefone começa a receber chamadas e a hora que bem entenderem efetuam "logoff" do sistema, parando a atividade e a remuneração. Ora, vamos concordar que a solução é genial e todos ganham! Não consigo imaginar porque esse tipo de coisa não funciona por aqui. Será que é por conta da cultura atrasada ou mesmo pelo protecionismo estatal que não permite que as pessoas escolham sua forma de trabalhar livremente? Não sei.

Em fim, já fugi do assunto e me delonguei do propósito inicial. Gostaria apenas de abrir a discussão sem trazer "verdade absoluta" alguma. Apenas deixo aqui a toda uma reflexão gerada a partir de um simples "olhar através da janela". Espero, sinceramente, que todos possam compartilhar de um momento tão singelo e ao mesmo tempo tão profundo em que tudo perde sentido, seja cortando o pão no café da manhã ou durante um filme.

1-http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1025/noticias/agora-vemaparte-mais-dificil

2-http://br.guiainfantil.com/direitos-das-criancas/450-trabalho-infantil-no-brasil.html

3-Friedman, T. (2007). O Mundo é Plano: Uma breve história do século XXI. Rio de Janeiro: Objetiva.

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